quarta-feira, 29 de abril de 2015

O amor pelo rádio, por Lédio Carmona


A semana no rádio esportivo está marcada pelas contratações de José Carlos Araújo, Gérson e Gilson Ricardo pela Super Rádio Tupi, que tanto forma uma "super seleção" ao juntá-los à já forte equipe que possuía quanto causa um rebuliço positivo no imaginário de milhões de ouvintes por recolocar Garotinho e Washington Rodrigues no mesmo microfone depois de mais de uma década e meia, juntos novamente como já estiveram em Nacional e Globo.

Comentarista do SporTV, Lédio Carmona deixou de escrever no papel com o recente fim da sua coluna no jornal Extra. Mas ele continua mostrando sua altíssima capacidade de escrita em seu perfil no Facebook, no qual soltou este texto onde fala do seu amor pelo rádio e por alguns profissionais especialmente marcantes. É um texto tão bom que me senti obrigado a trazê-lo para este blog, achei que deveria dividi-lo com os amigos do Brasil. Eis:

"Não tenho o menor constrangimento em dizer que, entre infância e adolescência, meu melhor amigo foi o rádio. Acordava, almoçava, jantava, brincava e dormia com o meu de pilhas. Ouvia Rádio Nacional, Globo, Tupi e Continental/Guanabara (onde Orlando Baptista estivesse). Éramos inseparáveis – eu e meus rádios (eram muitos, pois se meu time perdia algum jogo importante eu o espatifava longe e obrigava meu pai (pobre de marré) a comprar outro no dia seguinte.

Ainda ouço muito rádio. Hoje tenho menos tempo. Os canais esportivos de TV a cabo fazem o papel que era do rádio ontem. Fico ligado na TV o dia inteiro. E, nos horários dos programas, ouço rádio. Gosto da CBN, ouço o 'Globo Esportivo' e não perco o 'Sala de Redação', da Gaúcha. Acompanho algumas jornadas também, principalmente na ida e na volta aos estádios. Nunca deixei de ouvir rádio. Jamais deixarei. É meu amigo, sempre será.

Já escrevi aqui que fiz jornalismo porque queria ser radialista. Meu sonho era ser igual ao Loureiro Neto. Gostava da voz do Loureiro, do jeito calmo que dava as notícias, por ser português... Certa vez, fui ver um jogo insignificante no Caio Martins (não lembro qual era). Sentei na arquibancada coberta, olhei para o gramado e vi que Loureiro estava encostado no alambrado, fumando, com uns dois beirinhas batendo papo com ele. Desci e encostei. Entrei no papo e, durante os 90 minutos daquela pelada, Loureiro fazia suas intervenções e conversava conosco. Foi um dos dias mais felizes da minha vida. E um dos mais tristes foi ano ano passado, quando Loureiro morreu.

Também fiquei mal quando perdemos Luiz Mendes, Waldir Amaral , Jorge Curi, Doalcei Bueno de Camargo, Antonio Porto, Carlos Marcondes, João Saldanha, Luis Mendes, Danilo Bahia, Orlandão, etc... E como sinto falta de Maurício Torres, um amigo de verdade, que entrevistei em 1996 para uma matéria do Jornal do Brasil sobre plantonistas e que, anos depois, virou um ombro-amigo. Maurício era outro que migrou para a TV, mas nunca abandonou o carinho pela latinha.

A ida de Garotinho para a Tupi será ótima para o rádio. Garotinho e Apolinho juntos. Luta pela audiência. Rádio Globo forte, com Luiz Penido, que ouço desde 1974. Eraldo Leite, outro ícone, voz que me acompanha desde 1977. Dé, Rafael Marques, Felippe Cardoso e Edson Mauro, outro parceiro inseparável nesses 40 anos em que eu e o rádio estabelecemos essa relação.

É uma relação de admiração, respeito e agradecimento. Ainda fico meio tímido quando entro no mesmo elevador do Garotinho no Maracanã. Sempre tenho vontade de tirar uma foto, de mostrar que continuo fã, apesar de agora sermos colegas. Vivo repetindo para Eraldo que o levei para dar palestra para minha turma na PUC, em 1985. Gargalho como Ronaldo Castro, outro personagem que nunca esquecerei, na entrada e saída dos estádios. É a força do rádio. As vozes são eternas. As lembranças, mais ainda.

Nunca fui radialista. Na faculdade, arrumei emprego no JB – jamais pensei em escrever para jornal e revista. Fiz isso durante 20 anos, sei lá. Nunca pensei em trabalhar em TV. Sou ogro, anti-social, feio, careca, míope, desajeitado. Parei na TV, quase sem querer. E no rádio nunca trabalhei. Talvez porque nossa relação seja mesmo de paixão, de amizade, de estar sempre perto um do outro. Não é um compromisso, um dever, uma finalidade. Sempre será um prazer. Meu melhor amigo."

fonte: papo de bola

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