sábado, 20 de outubro de 2012

Conheça o perfil dos acreanos na Enciclopédia do Rádio



Aos olhares de centenas de professores e pesquisadores foi lançado dia 5 de setembro, em Fortaleza, durante a realização do 35º Congresso da Intercom, a Enciclopédia do Rádio Esportivo Brasileiro. O livro, organizado pelas jornalistas e professoras Nair Prata e Maria Cláudia Santos, tem prefácio do presidente da Intercom, Antonio Hohlfeldt. O trabalho é mais uma investigação coletiva do Grupo de Pesquisa Rádio e Mídia Sonora da Intercom e conta com a colaboração de 121 autores.

A obra foi publicada pela Editora Insular e com o apoio da Intercom, apresentando as biografias – com fotos – dos 231 mais importantes radialistas esportivos de todos os Estados brasileiros, incluindo o Distrito Federal. Segundo a professora Nair, “o livro nasceu da necessidade de se contar a história de uma das facetas mais ricas e mais populares da radiofonia, a programação esportiva, mas não de uma forma linear. Buscamos contar essa história por meio da recuperação da trajetória dos personagens que a construíram”.

A primeira etapa da pesquisa consistiu na formação do grupo de investigadores, com pelo menos um representante de cada Estado e também do Distrito Federal. Ao final, participaram da Enciclopédia 84 pesquisadores, que contaram com a colaboração de 37 estudantes de graduação - ao todo, 121 pessoas envolvidas.

Enciclopédia do Rádio Esportivo Brasileiro, conta a trajetória de 231 profissionais que, de Norte a Sul, marcaram - ou ainda marcam – o cenário esportivo radiofônico do país.

Cinco são os radialistas acreanos presentes no livro, biografados pelo jornalista Francisco Dandão. Os escolhidos foram: Campos Pereira, Delmiro Xavier, Joaquim Ferreira, Raimundo Nonato “Pepino” e Zezinho Melo. Outro dois radialistas acreanos também estão na obra, mas foram incluídos pelos estados do Pará e Amazonas. O primeiro é Zaire Filho e o segundo é Valdir Correia.

Na edição desta quinta-feira, o jornal O Rio Branco traz para os seus leitores os cinco personagens biografados por Francisco Dandão.

enciclopédia já está disponível para venda pelo site da Editora Insular: www.insular.com.br.

Pedro Paulo Menezes de Campos Pereira

 
Nasceu em Rio Branco, capital do Acre, em 29 de julho de 1936, e faleceu em Goiânia, vítima de enfisema pulmonar, em 25 de junho de 2004.

Funcionário público, atuando por vários anos nas secretarias de Comunicação Social e de Saúde do Governo do Acre, Campos Pereira, como ficou conhecido, desde cedo revelou duas grandes paixões: a bola e o rádio.

Torcedor apaixonado do Corinthians, em São Paulo, do Fluminense, no Rio de Janeiro, e do Rio Branco, no Acre, Campos Pereira também teve uma intensa vida futebolística dentro dos gramados. Na pele de um zagueiro vigoroso, daqueles de desarmar o adversário muito mais na base da força do que da técnica, ele defendeu, ao longo de dezoito anos (1950 a 1968), os seguintes clubes: América, Grêmio Atlético Sampaio (ambos extintos), Juventus, Independência e Rio Branco.

Aos 32 anos Campos Pereira resolveu que era hora de parar de correr atrás da bola. Não a abandonou de todo, porém, passando a viver o futebol através dos microfones. Estabeleceu uma parceria com Edmir Gadelha, José Lopes e José Xavantes, outros igualmente apaixonados pelo binômio bola/rádio, e passou a narrar jogos com um gravador. Após as partidas, ele levava a gravação ao estúdio da Rádio Difusora Acreana e a colocava no ar.

No início da década de 1970, Campos Pereira criou o primeiro programa esportivo diário da radiofonia acreana. A rádio se chamava Novo Andirá, de propriedade da família do governador (1971-1975) Francisco Wanderley Dantas, e na equipe formada por Campos Pereira, figuravam outras lendas da crônica esportiva acreana, como são os casos de Delmiro Xavier (narrador), Joaquim Ferreira (narrador), William Modesto e Raimundo Fernandes (estes dois últimos como repórteres de pista).

Mas Campos Pereira não foi somente uma espécie de pai da crônica esportiva acreana. Além dessa atividade, ele foi também apresentador de telejornal (TV Acre), presidente da Federação Acreana de Desportos, repórter policial de rádio, colunista de jornal impresso e presidente da Federação Acreana de Ciclismo.

Delmiro Xavier

 
Delmiro Xavier da Silveira Neto nasceu em 29 de maio de 1943, em Rio Branco, e faleceu na mesma cidade, em 11 de janeiro de 2007.

Nascido e criado no bairro da Cadeia Velha, Delmiro desde a infância cultivou três grandes paixões: o futebol, que o fez algum tempo depois se transformar num dos maiores narradores esportivos do Acre; o jogo de dominó, que consumiu muitas das suas noites, rodeados de amigos igualmente ligados nas “pedrinhas retangulares”; e o rádio, amigo inseparável em todos os momentos. Três paixões que o acompanharam até o fim da sua vida de 63 anos.

Sobre o rádio, explicam seus familiares, ele tinha uma ligação tão exagerada que jamais admitiu assistir a um jogo de futebol pela televisão com o som do aparelho ligado. “Ele assistia o jogo com um rádio ligado sobre o televisor”, explicam.

Chamado pelos amigos da crônica esportiva de “Gogó de Ouro”, dada a emoção que costumava imprimir às narrativas futebolísticas, quando praticamente não parava de falar para tomar fôlego, Delmiro Xavier, advogado de formação e funcionário de carreira da Assembleia Legislativa do Acre (chegou, inclusive, a assumir o cargo de diretor geral da entidade), era tão ligado ao futebol que, nos anos de 1960, acabou se casando com uma das chefes da torcida do Atlético Acreano, a professora Ana D’Anzicourt, que viria a ser, na década de 1990, titular da Secretaria de Educação do Estado do Acre. Da união com a torcedora nasceram seus dois filhos: Ana Cristina e Luiz Carlos.

Uma das marcas de Delmiro Xavier, cuja militância como cronista esportivo deu-se em duas emissoras, Rádio Novo Andirá e Rádio Difusora Acreana, foi a criação de bordões. Até hoje os seus ouvintes fiéis lembram-se de frases inventadas por ele. Casos de “Seguindo a ordem natural das coisas...”, para expressar, principalmente, a lógica de um resultado; “Chico Langanho”, para designar um jogador inexpressivo, fosse ao que se refere ao jogo de futebol ou ao jogo de dominó; e “Esse foi fulhanca”, para expressar admiração por alguma coisa.

Joaquim Ferreira do Nascimento
Joaquim Ferreira, nome pelo qual ficou conhecido na crônica esportiva, nasceu em Brasiléia (AC), no dia 11 de outubro de 1946.

Migrou com a família para Rio Branco, aos quatro anos de idade, logo após o falecimento da mãe. Na capital foi morar no segundo distrito (a cidade era dividida em dois distritos, obedecendo ao curso do rio Acre), onde se deu o contato com a bola, em peladas de rua e campos de grama rala.

Na adolescência, Joaquim dividia o tempo em duas atividades: o exercício do futebol na zaga central dos juvenis do Atlético Acreano e um emprego como comerciário. Nas poucas horas ociosas, quando não tinha vaga nas peladas jogadas numa quadra próximo à sua residência, Joaquim, munido de uma lata vazia de leite condensado, que fazia as vezes de microfone, começou a brincar de narrar as peripécias dos peladeiros.

Em 1964, ingressou no Exército Brasileiro, na qualidade de voluntário. Mas a vida na caserna se mostrou tão afeita aos seus anseios que ele resolveu engajar e fazer carreira como militar, galgando o posto de terceiro sargento, no qual viria a se aposentar alguns anos depois. Paralelamente, licenciou-se em Matemática na Universidade Federal do Acre, passando a exercer o magistério no corpo docente da Secretaria de Educação do Estado.

Em 1967, a primeira experiência como narrador esportivo, na Rádio Difusora Acreana, num amistoso interestadual entre Atlético Clube Juventus, do Acre, e Clube de Regatas Flamengo, do Rio de Janeiro. Essa primeira vez como narrador aconteceu para cobrir a ausência do então titular Etevaldo Gouveia, que se encontrava afônico. Sabedores do talento do militar e professor Joaquim Ferreira, a direção da rádio o convidou. Resultado: uma carreira que só se encerraria 22 anos mais tarde, em 1989, quando o futebol acreano passou de amador para profissional. Entre uma data e outra, centenas de horas de narração, nos mais variados estádios brasileiros, entre os quais, Joaquim relata com orgulho, Morumbi, Maracanã, Pacaembu e Serra Dourada.

Zezinho Melo
José Francisco de Melo Filho nasceu em 30 de julho de 1950, em Brasiléia, cidade na fronteira do Brasil com a Bolívia, distante 240 km de Rio Branco.

Na infância mudou-se com a família para Epitaciolândia, vizinha de Brasiléia, onde começou a trabalhar como auxiliar de serviços gerais num “barracão” de propriedade do seringalista Joaquim Falcão Macedo, político que anos depois governaria o Acre.  Em 1961, nova mudança. Desta feita para a capital. Logo ao chegar, começou a história de Zezinho Melo com a radiofonia, uma vez que o personagem, aos 11 anos, conseguiu um emprego comoOffice boy da Rádio Difusora Acreana. Mas durou pouco no cargo. Logo Zezinho passou a dominar o comando dos “pratos”, onde se colocavam os discos para tocar. E aí virou técnico de som.

Aos 17 anos chegou a vez de ocupar os microfones. Primeiro lendo mensagens. Depois com um programa próprio, de variedades, que se chamava Parada Jovem. “Dentro do Parada Jovem”, explicou Zezinho, “havia um quadro chamado ‘Não diga sim nem não’, onde o ouvinte que telefonava deveria responder algumas perguntas, mas não poderia dizer as respectivas palavras do título. Foi um programa de muito sucesso na época”, disse.

A narração esportiva entrou na vida de Zezinho Melo em 1970, por acaso. É que um vizinho dele, chamado José Lopes, que também trabalhava na Rádio Difusora Acreana, sempre o ouvia, nas horas vagas, narrando e gravando fictícias partidas de futebol. Convidado para fazer um teste nos microfones da emissora, Zezinho foi agregado à equipe de esportes, onde permanece até hoje, 42 anos depois.

Uma curiosidade na vida de locutor esportivo diz respeito a uma época em que Zezinho também jogava futebol (lateral-esquerdo do Rio Branco e do Internacional, no início da década de 1970). É que em dia de rodada dupla, quando o seu time estava em ação, ele narrava uma das partidas e jogava a outra. “Quando eu jogava na preliminar, subia para cabine todo suado. E quando eu jogava na partida de fundo, vestia o uniforme de jogo ainda na cabine”, contou divertido.

Raimundo Nonato de Oliveira (Pepino)
Nasceu em Manoel Urbano, interior do Acre, a 220 km de Rio Branco, no dia 31 de agosto de 1945.

Ainda criança saiu de Manoel Urbano para Sena Madureira, outro município acreano, onde fez os primeiros estudos. Na adolescência, migrou para a capital, onde cursou o antigo primeiro grau no Colégio Acreano. Ao mesmo tempo em que realizava os seus estudos, começou a trabalhar em serviços gerais, executando tarefas que foram desde vendedor ambulante até comerciário.

Parou de estudar, atraído por um anúncio na Rádio Difusora Acreana, a principal emissora do estado, que procurava jovens interessados em se iniciarem como locutores, no final dos anos de 1960. Aprovado, passou a ler anúncios comerciais, atividade em que permaneceu por um longo tempo. Mas Nonato tinha a certeza de que não dava para viver apenas de rádio. Em 1972, conseguiu uma bolsa de estudos para cursar Técnicas Agrícolas em Presidente Prudente. Ao regressar a Rio Branco, em 1975, conseguiu um emprego na Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural do Acre. Não resistiu, porém, ao apelo do rádio e se engajou na equipe de esportes da mesma Rádio Difusora Acreana onde anos antes iniciara a sua carreira de locutor de comerciais.

Na crônica esportiva, entre 1975 e 2002, começou como repórter de pista, passando para apresentador de resenha, e culminando com a função de comentarista, onde diz ter achado a sua vocação. Durante seus quase trinta anos de militância esportiva, passou por quatro emissoras: Rádio Integração, de Cruzeiro do Sul; Rádio Seis de Agosto, de Xapuri; Rádio Novo Andirá e Rádio Difusora Acreana, ambas de Rio Branco.
Atualmente, por conta de um glaucoma, Raimundo Nonato perdeu a visão e não frequenta mais os estádios. Entretanto, passa os dias ouvindo tudo sobre futebol, tanto faz se no Acre, no Brasil ou no mundo. E, para não perder o costume, de vez em quando telefona para um programa de esportes qualquer e manda para o ar o seu comentário, com a lucidez e a competência dos anos em que esteve em atividade.
Fonte: Manoel Façanha

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