quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Fortaleza escapa de punição pesada no STJD

Foram quase cinco horas de julgamento no Centro do Rio de Janeiro, onde fica o Superior Tribunal de Justiça Desportiva (STJD). E a primeira batalha – outra ainda está por vir – foi vencida pelo Fortaleza, que briga com o Campinense para permanecer na Série C do Campeonato Brasileiro. Em decisão unânime, os auditores da Segunda Comissão Disciplinar decidiram absolver o Fortaleza, rechaçando a possibilidade de remarcar o jogo contra o CRB. Dessa forma, o Fortaleza segue na Série C e o clube paraibano rebaixado.

A derrota do Campinense em primeira instância deverá ser apenas o “primeiro tempo” desta guerra nos tribunais, já que deverá haver um recurso ao Pleno, em segunda instância, podendo esta decisão ainda ser revertida. O clube da Paraíba tem até o fim desta semana para protocolar o recurso no STJD.

A Segunda Comissão Disciplinar ainda decidiu multar os dois clubes em R$ 20 mil por atraso para o retorno para o segundo tempo. Ainda multou o Fortaleza em mais R$ mil por conta de uma garrafa arremessada no gramado do Presidente Vargas. O árbitro Gutemberg de Paula Fonseca foi absolvido. Paulo Rodrigues, do CRB, foi punido com um jogo de suspensão. Goleiro Cristiano, também do CRB, foi punido por dois jogos de gancho. E Maizena, também do CRB, acabou absolvido.

Quem acabou “pagando o pato” pelo fato foi Carlinhos Bala. O atacante do Fortaleza foi punido com multa de R$ 10 mil e seis partidas de suspensão. Essas partidas serão cumpridas no próximo campeonato nacional que o jogador disputar.

Saiba como votou cada auditor, na sequência:

- Francisco de Assis Pessanha: Absolve o Fortaleza da possibilidade de exclusão do campeonato; multa Fortaleza e CRB em R$ 20 mil pelo atraso no retorno ao gramado; absolve o árbitro Gutemberg de Paula Fonseca; aplica um jogo ao jogador Paulo Rodrigues, do CRB; aplica dois jogos ao goleiro Cristiano, também do CRB; absolve o jogador Maizena, do CRB; suspende Carlinhos Bala, do Fortaleza, por seis partidas, e ainda o multa em R$ 10 mil.

- Otacílio Araújo: Diverge em relação à multa aplicada, estipulando em R$ 15 mil pelo atraso a multa ao Fortaleza e R$ 10 mil ao CRB. E mais R$ 5 mil ao Fortaleza por uma garrafa arremessada. E absolveu Carlinhos Bala.

- Marcelo Tavares: Aplica multa de R$ 10 mil e 12 partidas de suspensão ao atacante Carlinhos Bala; mantém a pena de R$ 20 mil aos clubes pelo atraso. Absolve o Fortaleza da exclusão do campeonato. E acompanha Otacílio para multar o Fortaleza em R$ 5 mil pelo arremesso da garrafa. Também absolve o árbitro. Acompanho o relator na punição aos jogadores Paulo Rodrigues, Cristiano e Maisena.

- Jonas Lopes: Acompanha a multa de R$ 20 mil para os dois clubes pelo atraso. Multa o Fortaleza em R$ 5 mil pela garrafa arremessada. Absolve também o Fortaleza quanto à exclusão do campeonato. Acompanhou os outros auditores na punição aos expulsos e na absolvição de Maizena. Condenou o jogador Carlinhos Bala à multa de R$ 10 mil e seis partidas de suspensão.

- Paulo Valed Perry: Acompanha o relator na multa aos clubes, e pune o Fortaleza em R$ 5 mil pela garrafa alterada. Suspende o árbitro por 30 dias. Quanto aos jogadores, mantém a pena do relator. Já sobre o Carlinhos Bala, aplica multa de R$ 10 mil e 12 jogos de suspensão.

Confira trechos do depoimento de Carlinhos Bala:

“Sempre fui jogador de futebol desde os meus 16 anos. Nasci em favela e fui criado por lá. Conquistei tudo com honestidade. Na imagem em questão, eu disse para os jogadores do CRB que aquele seria o nosso gol do título. Briguei com o zagueiro do CRB porque ele tinha me zuado na hora que perdi o pênalti. Ele falou até que o Fortaleza seria rebaixado. Por isso passei gesticulando e o xingando. Nunca passei por essa situação de brigar para não cair”.

“O futebol me proporcionou muitas alegrias. Jamais pediria para um adversário facilitar ou entregar o jogo”, continuou o atacante.

“Após o terceiro gol, apenas me virei para um jogador do CRB no centro do campo e pedi para ele recomeçar logo a partida por que precisávamos buscar outro gol”.

Questionado sobre para quantos atletas do CRB o jogador teria dito que só faltava um gol, Bala responde: “Apenas para um, o zagueiro, logo após o terceiro gol”, disse. Pressionado pelo advogado do Campinense, o atacante se contradiz e lembra que falou com outros jogadores que o Fortaleza precisava de mais um gol.

Confira trechos do depoimento do árbitro Gutemberg Fonseca:

“Não consigo entender com questão ao relato da partida. Tudo foi relatado. Preciso entender isso para explicar. Só queria acrescentar que em cada profissão existe o ser humano, homem, pai de família. Antes de tudo eu gostaria de dizer que nada do que foi publicado na imprensa é verdade. Não dei entrevista alguma dizendo que ouvi os jogadores conversarem”, disse o juiz.

Questionado se em algum momento ouviu atletas do Fortaleza conversando com os do CRB sobre fazer um gol ou pedir ajuda para se classificar, o árbitro responde: “Em momento algum. Se tivesse ouvido, teria relatado na súmula”.

Ele ainda foi perguntado se viu o Carlinhos Bala mostrando o número um para os jogadores do CRB: “Não vi nada. Estava focado em outras coisas. Como anotar as informações no cartão e recomeçar a partida. O jogo transcorreu normal, sem cera, com muita disputa”.

Carlos Portinho, advogado do Campinense, perguntou por que a troca das camisas não foi relatada na súmula. “Foi relatado sim. Avisei que eles não poderiam jogar com aquele uniforme. Não contestaram e trocaram. Está na súmula que a equipe do Fortaleza atrasou o seu retorno ao campo em 12 minutos”, explicou o juiz.

Confira a sustentação do procurador Willian Figueiredo:

"A procuradoria tem o dever de tecer alguns comentários. Esse tribunal geralmente se ocupa de julgamentos mais comuns. Em ocasiões especiais como essa, existe um clamor público, uma espécie de espera por uma resposta do tribunal. Em 2009 julgamos o caso do Coritiba, que perdeu mando de campo de 30 jogos inicialmente. Mas foi uma decisão significativa em uma questão de violência".

“Nos deparamos às vezes com questões de doping. Esses julgadores presentes já passaram por situações similares. E em todas a comissão agiu de forma exemplar. Temos o caráter pedagógico. Daqui saem decisões que passam regras de conduta para a sociedade em geral. Seria um retrocesso não fazer desse um caso exemplar”, disse.

“Vimos imagens estranhas, jogadores reunidos no meio campo, jogadores avisando sobre o resultado do outro jogo, avisando sobre quantos gols precisavam... O Carlinhos Bala disse que xingou os adversários. Acho que se isso fosse verdade os jogadores do CRB teriam reagido. Me parece que o depoimento do Bala tem que ser visto com ressalva. Assim como o árbitro não viria aqui dizer que viu o casos e não relatou na súmula. Tudo precisa ser visto com ressalva”.

“Os artigos indicados nos permitem até anular essa partida para que esse campeonato não fique manchado”, finaliza.

Confira a sustentação do advogado Carlos Portinho, do Campinense:

“Parece que ninguém viu nada, né? Carlinhos Bala, o árbitro... Aliás, o árbitro estava em campo? Aos 49 minutos do segundo tempo ele não viu um recuo para o goleiro do Fortaleza. Sem competição não há disputa. Foi uma covardia. Fere o princípio maior do esporte, que é a competição. Os autos do processo têm provas evidentes. O zagueiro do CRB disse "deixa fazer". Carlinhos Bala disse falta um. Seria uma cerveja? Não acredito. Quero preservar o espírito de competição”.

O advogado lembra que um auxiliar técnico do Fortaleza foi falar com o goleiro do CRB após o terceiro gol. E também que jogadores do Fortaleza avisaram o atacante Aloísio Chulapa, do CRB, sendo informado sobre o resultado da outra partida.

“Esse episódio mostra a mais absoluta ausência do fair-play. Entendo que não há outra solução que não o artigo 242, com a eliminação do clube do campeonato. Caso contrário, que joguem de novo como manda o artigo 243. Ensino aos meus filhos que o importante é competir. Não sei o que vou dizer a eles quando chegar em casa dependendo do resultado desse processo. Esperamos espírito de competição”.

Confira a defesa do advogado Marcelo Desidério, da Federação Cearense de Futebol:

“Me senti transportado para a Alemanha nazista diante desse discurso. Foi uma vergonha sim. Mas não o jogo, e sim o que o Campinense fez com o Fortaleza na última semana. Quem está mendigando é o Campinense, que quer entrar no céu sem morrer. Quer que este tribunal cancele o resultado que foi conquistado em campo. Só não entendi direito. Se o Campinense quer que o Fortaleza jogue outra vez, eles vão jogar de novo também?”.

“O que o Fortaleza passou toda essa semana eu posso dizer como representante e torcedor. Fomos humilhados. Viramos o Dick Vigarista do futebol brasileiro. Rogo aos senhores que não caiam nessa mendicância do Campinense. O Fortaleza não precisa provar nada. O Fortaleza é inocente, os atletas também. Os jogadores se xingam... são homens buscando um resultado e defendendo o pão de seus filhos. A luta para ganhar esse jogo não foi fácil. Os jogadores do Fortaleza estão de parabéns. Não houve facilidade. No último gol, inclusive, dois jogadores do CRB dão carrinho na bola. Isso é facilitar?”.

Saiba como foi a defesa do advogado Paulo Rubens, advogado do Fortaleza:

“Estou consternado pelo o que disse o advogado do Campinense. Prego a moral na Justiça Desportiva. Falou-se em ética, moral, verdade dos fatos. O Campinense faz parecer que o Fortaleza tem de ser execrado. E não traz a verdade dos fatos. Não se vê uma linha de que a equipe do CRB estava com oito homens em campo a partir dos 20 minutos do segundo tempo. O goleiro era um atleta de linha. Falar que houve facilitação é leviandade. Trazer prova editada para execrar um clube de 93 anos de existência é demais!”, disse o advogado.

“As acusações do Campinense são graves demais. E não há provas suficientes. Leitura labial é balela! É balela! A defesa do Fortaleza pede a absolvição da equipe no artigo do 243 do CBJD, em relação à realização de uma nova partida. Escutei certa vez que construir uma reputação é difícil. Mas destruí-la é fácil demais. E isso que estão fazendo com o Fortaleza”, finalizou.

Saiba como foi a defesa do advogado Osvaldo Sestário, do CRB:

“Pedi para que o Maizena viesse depor, mas o clube, em uma penúria financeira grande, não pode mandar o jogador. E nem o Aloísio. Simplesmente pela questão financeira. Mas, para mim, tudo isso é uma questão técnica. Há exagero. Primeiro peço que o clube não seja punido pelo atraso. O clube enfrentou muita pressão no jogo. E só demorou para voltar para o segundo tempo porque o Fortaleza também demorou”.

“Agora sobre a parte técnica. O momento em que o jogador fala com o goleiro, que supostamente teria dito "deixa fazer", não foi após o terceiro gol. Foi em outro momento. E era apenas para o goleiro bater o tiro de meta. Aliás, como ia bater tiro de meta se saiu o gol? Foi uma armação nos vídeos. Os próprios jogadores do CRB me confirmaram e ainda disseram que preferiam ter o Fortaleza rebaixado para o próximo ano. Já pensando na dificuldade da competição de 2012. O time não entregou em momento algum. Até porque, por menos de dois minutos, o CRB poderia ter sido eliminado. Não existe”
Fonte: Justiça Desportiva
 

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