terça-feira, 15 de julho de 2014

Silvio Luiz completa 80 anos e cogita narrar o Mundial da Rússia em 2018

 













Pode-se dizer que Silvio Luiz, que hoje completa 80 anos de vida, mais de 60 de carreira, é, fazendo uso de um termo que se tornou frequente no meio futebolístico, um mito. Ele viveu a era de ouro dos festivais de MPB na TV Record, foi um dos primeiros repórteres de campo da televisão brasileira, foi ator, humorista, candidato a presidente da Federação Paulista de Futebol e até árbitro. “Quando era repórter da Rádio Bandeirantes, resolvi fazer o curso de arbitragem para me informar e me infiltrar no meio deles. Por 12 anos apitei jogos tendo inclusive feito parte do quadro nacional apitando e bandeirando alguns jogos da Série A”, conta.

Silvio já teve que sair de camburão de um estádio em Bauru (SP) quando o time da casa perdeu um jogo, narrou uma partida vestindo apenas cueca, desceu a Avenida Brigadeiro Luiz Antônio – uma das principais de São Paulo – de charrete e foi convidado para um café com o Presidente da República, na época, Itamar Franco. Sua voz, de timbre inconfundível, já esteve em nove Copas do Mundo, diversos Jogos Olímpicos e inúmeras emissoras de rádio e TV do país. O Mundial mais especial foi o da Espanha, em 82: “Transmitimos pelo rádio da mesma forma como se fosse para a TV. A campanha era: ‘Abaixe o som da TV e ouça a Rádio Record’’’, lembra.
Hoje, além de estar no programa Bola Dividida, da RedeTV!, e na Rádio Transamérica, está no Waze, aplicativo de trânsito e navegação, na franquia de jogos de futebol para videogames Pro Evolution Soccer, em propagandas que vão de refrigerante a material de construção, e até na música, com ‘’Futebol, Mulher e Rock’n roll”, da banda de hard rock Dr. Sin. No entanto, o vozerio e os célebres bordões, como ‘’Pelas barbas do profeta’’, ‘’Pelo amor dos meus filhinhos, entre outros, não estiveram onde o público mais gostaria que tivessem estado: na Copa do Mundo do Brasil.
Copa no Brasil
O narrador, que já tinha ficado de fora do Mundial da África do Sul, em 2010, por ter postado na internet a foto de uma cadeira quebrada do programa que apresentava no canal Bandsports, devido ao vínculo com a sua atual emissora, que não detém os direitos de transmissão da competição, não foi liberado para aceitar o convite da Fox Sports para participar do que seria seu décimo Mundial, mas só revelou chateação com um dos episódios. “Evidente que há mágoa em relação a 2010 e à falta de diálogo e a incompetência de quem dirigia a emissora por não ter me chamado e indagado se a postagem de uma cadeira quebrada – reclamada por mais de três meses – tinha sido feita por mim, já que no Twitter, naquela oportunidade, existiam muitos ‘Silvio Luiz’. No segundo caso, a Fox queria me prestar uma homenagem me convidando, mas entendi a negativa, uma vez que tenho um contrato com a emissora”.
WAGNER CARMO/Gazeta Press
Narrador não teve a oportunidade de narrar o Mundial de 2014, assim como em 2010
Até uma campanha na internet foi feita neste ano com a hashtag #NarraSilvio e chegou a ficar entre os assuntos mais comentados do Twitter, onde o locutor é atuante e é possível ter uma ideia de sua popularidade pelos 540 mil seguidores que tem. “Silvio é o mais futebolístico de todos os narradores esportivos”, define o jornalista e escritor Wagner William, autor do livro ‘’Olho no Lance”, espécie de biografia de Silvio, lançado em 2002. “Ele criou uma linguagem própria, quebrou padrões, era o futebol como o futebol deveria ser, divertido, leve e engraçado. Um estilo que chegou e marcou: o narrador estava do nosso lado, ali no sofá, disparando comentários ácidos e bem-humorados. Existe algo que não combine mais com futebol do que paletó e gravata? Enquanto os boleiros e técnicos se tornavam superstars, Silvio era a subversão: a arquibancada dominava o microfone”, ressalta o escritor.
No final das contas, Silvio, que já se definiu como um ‘’legendador de imagens’’ mais que um narrador – por entender que não precisa dizer ao telespectador aquilo que ele pode ver com seus próprios olhos, ‘’então, procuro na imagem que vejo um detalhe, como em uma foto, e dou uma legenda para aquilo” – não traduziu as emoções do torneio disputado pela segunda vez no Brasil. Crítico da realização do evento desde seu anúncio, não mudou seu ponto de vista até o fim.
“Continuo com a mesma opinião. O trem-bala e outras promessas foram cumpridas? Os gramados conseguiram suportar o torneio todo? Os estádios ficaram prontos no tempo combinado? Os entornos dos estádios foram reformados? Veja você mesmo o que foi e o que não foi feito dos encargos da FIFA. Tivemos ingressos falsificados? Os preços eram compatíveis com o padrão de vida da nossa população? O dinheiro gasto foi só da iniciativa privada ou saiu do seu e do meu bolso? Você ainda acredita que uma Copa não se faz com hospitais?”, pondera. As críticas respingam ainda no fracasso da seleção brasileira dentro de campo e na reformulação estrutural do futebol brasileiro, que é pedida com mais veemência desde então. ‘’Não vai mudar nada. Pode mudar o bolo, mas as moscas serão as mesmas”. Numa possível saída de Felipão do comando da equipe, Silvio é a favor de ao menos uma mudança, ainda que seja simples. “Importaria algum técnico. Os nossos estão ultrapassados no tempo e espaço”, aponta.

Futuro sombrio do futebol brasileiro

Com a experiência de décadas, o lendário jornalista, que considera ‘’trágico’’ o futebol jogado nos campeonatos do país atualmente e acredita que os jogadores do movimento Bom Senso terão que brigar muito para serem atendidos em suas reinvindicações, demonstra preocupação com o futuro do jornalismo esportivo. A seu ver, os jovens da profissão, além de não lerem mais, correm para o computador, pesquisam e já têm a resposta para tudo; e com a mesma rapidez com que a informação lhes chega, ela se vai.
Outro motivo de inquietação se deve a uma iniciativa que o ‘’belo e saudoso companheiro‘’ Luciano do Valle ajudou a propagar: a participação de ex-jogadores nas transmissões. “É uma lástima. O jornalista faz faculdade, paga pelo curso, ganha o seu diploma na formatura, procura emprego no mercado e não encontra, já que ex-jogadores estão no lugar dele e muitas vezes sem conhecimento nenhum do nosso vernáculo e sem qualidade de voz. Essa moda foi lançada há muito tempo pelo Luciano do Valle, na Bandeirantes, para abrilhantar as transmissões. Ele os chamava de ‘convidado especial’. Aí eles foram chegando, chegando e chegaram. Estes que estão aí hoje poderiam perfeitamente cursar uma faculdade de jornalismo, tirar seus diplomas e prosseguir na profissão; não estarem como ‘paraquedistas’”, afirma.
Sobre o comum julgamento de que os jogadores dão sempre as mesmas respostas nas entrevistas, o narrador opina que antigamente os perguntadores eram mais inteligentes e mais bem preparados, e diz sentir “muita falta” de jogadores mais autênticos, menos politicamente corretos e até mais rebeldes que, de um modo ou de outro, acabam colaborando com o seu trabalho e suas tiradas espirituosas.
A essa altura da vida, Silvio Luiz não se arrepende de nada do que tenha feito e diz se sentir uma pessoa completamente realizada. Mas, e quanto à Copa do Mundo da Rússia em 2018? “Estou fazendo 80 anos. Se conseguir viver até lá, tiver algum convite e pagar bem, por que não?”.

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